Lembrando de meu pai e suas bebidas preferidas

12 de agosto de 2022 às 13:12

O VINHO

Lembro-me de quando era criança, nas refeições, por mais frugais que fossem, o vinho era indispensável, sobretudo no inverno. Nestas épocas, as sopas quentes sempre antecediam o prato principal.

Meu pai colocava sempre um pouco do vinho tinto seco na sopa. Depois, ele e os adultos tomavam uma taça de vinho para acompanhar a refeição. Vez por outra, nós crianças podíamos tomar um gole, geralmente com açúcar. Na época, o vinho era feito na região, com uvas comuns de mesa que eram mais fáceis de cultivar. As videiras de uvas especiais trazidas pelos imigrantes italianos não progrediram e foram se extinguindo com as doenças daqui.


Comprava o vinho em barricas de madeira de 100 ou 120 litros, o transferia para garrafas, colocava a rolha e cobria com cera para vedar. Depois, as garrafas seguiam para o porão através de um alçapão no assoalho.Não me lembro,mas meu irmão mais velho lembra que ele colocava azeite nas sobras da garrafa de consumo proprio para conservar.Quando reabria,antes tomava o azeite com uma colher,depois o vinho…

Comercializava o vinho também em garrafa ou copo em nosso estabelecimento comercial, junto com os secos e molhados.
Hoje, ja vivemos um panorama de belos vinhos brasileiros e nosso país é um dos lugares onde a diversidade de vinhos do mundo é muito ampla, para nossa sorte. Pena que ele não é tratado como alimento como em muitos países, pagando assim impostos exorbitantes como bebida alcoólica.

Ontem e hoje, o vinho continua sendo o par perfeito para completar uma refeição.

O CAFÉ

Já nas manhãs frias de inverno,o bule de barro de café recém-passado estava cedinho no fogão de lenha (Quando ia a mesa, contudo,era num bule esmaltado com lindas pinturas de flores coloridas).

Permanecia assim no fogão entre a chapa de ferro e a borda de tijolo e reabastecido o dia inteiro, capricho da minha nona Tereza pelo lado materno,imigrante do Veneto, Itália.


Meu pai colocava o café preto na xícara e completava religiosamente com cachaça para espantar o frio. Era um ritual seguido depois pela minha mãe e demais adultos (o café da manhã propriamente dito vinha depois).

O hábito tinha sido transmitido pelo nono Giovanni,pelo lado paterno, também oriundo, de Vazzola (Treviso) tambem do Veneto.

A CACHAÇA
Na Itália,nos dias frios colocava-se no café originalmente a grappa, a aguardente do vinho. Na falta desta, adaptaram a cachaça.

Pura ou na caipirinha, é brasileiríssima da gema. Nasceu nos alambiques de cana e originalmente tomada por escravos e gente humilde. Produto da destilação do caldo de cana, distinta do rum da América Central que é destilado do melaço de cana.
Conhecimento e tecnologia no plantio, na destilação e no armazenamento em barris de carvalho permitiram termos hoje um produto de alto padrão. O reconhecimento internacional alçou a cachaça de qualidade a um status de chique e requintada. Todo bar que se preze pelo planeta ostenta pelo menos um drinque com a nossa cachaça.Ou chame-a por um dos cerca de 2.000 sinônimos que ela tem no Brasil! Na próxima feijoada, faça um aperitivo antes e ao final com uma cachaça de boa cepa. Durante, tome uma caipirinha. A legítima, de cachaça.

No Brasil, das artesanais,você pode escolher uma das cerca de 5.000 marcas existentes.Minas se destaca.

Quando falamos de tomar uma cachaçinha, sempre pensamos do beber consciente e moderado, do compartilhamento social com amigos.

Ao bebê-la, só não se esqueça de antes dar um gole pro santo, como manda a tradição, numa homenagem ao Pai Preto .Ele vai devolver em saúde, fartura e felicidade. Num ato generoso, jogue um gole a mais para nosso país, para menos corrupção e mais educação, segurança e saúde. Afinal, ela é nossa e ninguém tasca!
E assim, com café,vinho e cachaça, faço um brinde a lembrança de meu pai, a mim mesmo como pai de minhas duas filhas lindas Thonia Carla e Fernanda Paula ( com minha esposa Odete), aos meus genros, pais de minha neta Amanda(Beto/Thonia) e do meu neto João (Guilherme/Fernanda) e a todos os pais que ousaram ler este texto.Salute!

Escrito por Aldo Cadorin, sommelier por ABR-PR/Brasil,FISAR/Italia e WSET/level 2.